Nosferatu (2025)
- Suburbia Horror Show

- há 10 horas
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Todos conhecemos as histórias clássicas de vampiros, onde seres que não podem morrer seduzem (e se alimentam) daqueles que a vida é efêmera. Criaturas que exibem uma beleza marmórea e irresistível para aqueles que o mal toca, mas desde que Friedrich Wilhelm Murnau, um dos principais representantes do expressionismo alemão, trouxe das trevas em 1922 a persona do decrépito Nosferatu, as lendas de vampiros como agentes do pecado se desintegraram como a carne podre dos cadáveres.
Nosferatu é sujo e feio ao olhar. Simboliza a decadência social e a decrepitude da humanidade perante a peste, mas o que aconteceria se este monstruoso vampiro vivesse no Brasil da atualidade?

Cristiano Burlan (mais conhecido por dirigir os filmes "Mataram Meu Irmão", "Fome", "Mãe" e “Ulisses”) nos apresenta esta realidade. Lançado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sua versão de "Nosferatu" injeta o morto-vivo nos guetos suburbanos, nas vielas barrentas e nas noites boêmias da grande cidade. Longe de ser uma criatura poderosa, o vampiro de Burlan é só mais uma sombra sofredora e trêmula que se arrasta pela noite, em bares enfumaçados, sarais de poesia marginal e teatros vestidos de sombra e decepções. O diretor lança sem pudor a sua visão da maldição do vampiro; não uma eternidade a ser percorrida às custas da vida do outro e sim o peso de se morrer todos os dias. Uma morte que não leva o indivíduo e sim o que o torna um. O etílico, a droga e o sexo não mascaram a desgraça de Nosferatu então a criatura vaga pela noite à procura do pulsar da vida em outros frascos - arte, subversão, dor e perdas - e tudo isso destacado pela competente direção de fotografia de Cauê Angeli e a direção de arte de Mariko e Seiji Ogawa, além dos figurinos atemporais de Mariana Cypriano. Outros pontos fortes também são notados nas participações viscerais de Helena Ignez e Jean-Claude Bernardet (falecido em julho de 2025).

Ao assistir "Nosferatu" esqueça toda a grandiosidade que o cinema cedeu aos vampiros no decorrer dos anos. Aqui os grandes castelos dão lugar à bares e armazens fedendo a mijo e cigarro; o trotar dos cavalos cedem seu lugar ao dióxido de carbono vomitado pelos carros e as belas donzelas seduzidas são substituídas pela decadência da idade e pela exploração dos corpos femininos. Não existe amor e nem romantismo neste conto de vampiros. Cristiano Burlan nos entrega temas subjetivos e pesados através de uma estética composta por sombras e contrastes ("Entre o chiaroscuro reside o pathos humano”) e o resultado é uma avalanche de dúvidas sobre o que realmente é viver, e sobreviver. Longe de ser o monstro citado na literatura e no cinema, o Nosferatu de Rodrigo Sanches é uma sombra arredia que procura um significado no sangue dos marginalizados e, com este modus operandi, tenta abafar sua tristeza e solidão. O vampiro não é mais um predador da vida humana e sim mais uma vítima dela, uma vida que te come de dentro pra fora.

E para fugir disto tudo a criatura procura refúgio no teatro e no cinema, na companhia de fantasmas e atores decadentes. Nos bares suburbanos banhados à nicotina e pós-punk, onde a vida flui de maneira curiosa e hostil. As vítimas do vampiro são seus interlocutores e não compartilham apenas seu sangue e sim suas histórias e desilusões - "O tédio é a principal erosão de uma paisagem pobre."
Em suma, Cristiano Burlan nos oferece com "Nosferatu" uma fábula pessimista sobre os verdadeiros horrores que habitam a noite nas grandes cidades. Um filme que trafega pelo clássico e pelo kitsch com simplicidade e competência.

Se você ficou curioso para assistir à mais esta versão do clássico de 1922, o longa-metragem vai abrir a 12° edição da mostra "A Vingança dos Filmes B" na Cinemateca Capitólio (Porto Alegre - RS) no dia 02 de dezembro. Confira o trailer clicando aqui.











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